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20.1.11

Instituto de Literatura Popular da China

OK, não é exatamente esse o nome. Talvez fosse, se a China ainda fosse comunista; ao invés disso, é Instituto Confúcio. Um instituto de difusão cultural semioficial da China, nos mesmos moldes dos Goethe, Aliança Francesa, Cervantes, ou British Council. (Admitam, vá lá, que seriam muito mais interessantes os Institutos Shakespeare e Molière.) Por enquanto, eles existem basicamente associados a universidades mundo afora (lista as afiliadas brasileiras), mas a idéia é eventualmente criar uma rede de cursos de Putonghua e difusão cultural mundial no mesmo nível dos seus pares mais antigos.

Tem duas coisas que acho interessantes aí. Uma é o nome, que faz parte de um movimento maior de reabilitação do passado imperial em detrimento do republicano e comunista. Assim, ao mausoléu de Mao, veio se juntar uma estátua do Confúcio. O único outro ser humano homenageado na enorme praça era o primeiro presidente da China, Sun Yat-Sen, e mesmo assim só alguns dias por ano. Agora, o passado imperial e um fervor nacionalista são cultivados no lugar do comunismo como "cola" unificando o país, o que às vezes resulta em explosões de xenofobia que assustam os próprios governantes. E é um passado imperial bem fake, como fica claro quando se pensa que a outra grande figura homenageada além de Confúcio foi Qin Sihuangdi, o Primeiro Imperador.

Durante a maioria das dinastias imperiais chinesas, o (neo-)confucianismo foi a ideologia oficial, com direito aos famosos concursos públicos de admissão à classe dos funcionários-cavalheiros (antecedendo a elite das grandes écoles francesas em quase um milênio), que eram concursos de redação e conhecimento dos clássicos confucianos. E um dos vilões oficiais, tiranos terríveis da história lendária, perfeitamente equivalente aos Nero, Calígula, Héliogábalo romanos, ou ao Faraó X ou Nabucodonosor bíblicos, dessa narrativa oficial imperial foi justamente o homem que primeiro unificou o país. Não sem motivo; não apenas ele foi mesmo um tirano sanguinário, tanto que o império unificado por ele sobreviveu poucos anos após sua morte, como (e talvez mais importante) a versão radical da ideologia legalista que ele professava era diametralmente oposta ao confucianismo. Enquanto este eleva a família acima de tudo e a harmonia social com obrigações recíprocas entre as pessoas e instituições, ambas num modelo hierárquico gradado, o legalismo dos duques de Qin era, basicamente, uma ideologia do totalitarianismo, com direito a alguns filósofos seguidores dele falando em mudar a língua para torná-la mais apta ao comando e à obediência.

Não importa muito: ambos representam "a antiga e poderosa nação chinesa," numa apresentação rasa como um pires - ou melhor, como um pôster de propaganda, onde Mao seria malvisto fora das fronteiras. A pergunta é saber, nessa recuperação do passado imperial, se a língua a ser ensinada vai mesmo se chamar, como hoje, putonghuá, "língua comum," ou, como em Taiwan, guoyu, "língua nacional," ou huayu, "língua chinesa." Ou vão escancarar logo e chamar pelo nome antigo, guanhuá?

A outra coisa interessante da iniciativa é que, enquanto os países europeus ocidentais têm esses institutos, os EUA, que a China quer suplantar como potência mundial, não. Pode-se argumentar que nem todos os institutos culturais do mundo chegam aos pés de Hollywood, e que a difusão cultural americana é um quesito no qual o país ainda é, como queriam os ideólogos da hegemonia pós-guerra fria, a "hiperpotência," que não necessita de manifestar sua força desmesurada. E que os EUA subiram a esse píncaro muito antes da idéia dos institutos culturais.

A pergunta aí, fica sendo: "e as outras potências emergentes"? Não seria o caso do Brasil, por exemplo, criar um Instituto Machado de Assis para divulgar suas língua e cultura pelo mundo? Interesse há, como o demonstram as inumeráveis aulas de "brasileiro" anunciadas Europa afora. Ou cooptar o Instituto Camões? :p

Um comentário:

R.R.Dias disse...

Gosto do seu blog. Me acrescenta muito. :)