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13.7.12

Uma outra ação afirmativa

Ou, por um novo modelo de ação afirmativa.

Dentre muitas críticas destrambelhadas à ação afirmativa, uma que é inteiramente procedente é que há outras clivagens de preconceito no Brasil além daquela dirigida aos negros. Não estou falando da afirmação do "preconceito social" (ie de classe socioeconômica), que é duplamente errada, como vocabulário porque o racismo também é um preconceito social e como crítica ao modelo presente de ação afirmativa porque a classe socioeconômica já é alvo de ação afirmativa, mais difundida do que a de base racial inclusive.

O que é verdade, entretanto, é que existe preconceito étnico no Brasil contra "brancos," entre aspas porque eles são justamente os antigos "brancos da Bahia": mestiços de europeu, índio e africano, oriundos principalmente do interior do Nordeste. Baianos, em bom paulistês ("baianada" é uma cagada), paraíbas em carioquês castiço (paraíba também quer dizer brega). Não é simplesmente preconceito contra nordestinos em geral o que ocorre; o preconceito contra nordestinos unicamente ligado à origem (ou contra cariocas, em São Paulo) até existe, mas ele é low-key, restrito. Ele é uma questão genérica da classe média, não algo que vá render uma porta na cara, ou um coturno policial nas canelas, ao Norberto Odebrecht ou ao Ciro Gomes. Vamos chamar, à falta de coisa melhor, de tabareofobia, o preconceito contra tabaréus.

Ora, mais ainda do que o status racial não-étnico, característico da sociedade brasileira, o status como "nordestino" testaria os limites da autodeclaração. Afinal de contas, a Ivete Sangalo e o Tasso Jereissati poderiam muito bem se autodeclarar nordestinos, e nem estariam, como os branquelos que se autodeclaram negros em "protesto" contra a ação afirmativa, mentindo. Por outro lado, existe uma variável que está fortemente o bastante correlacionada com o status socioeconômico, inclusive com a condição de "nordestino," que é o local de moradia da família. Pode ser usado para isso o setor censitário do IBGE, que é pequeno o bastante (entre 200 e 400 domicílios) para ser razoavelmente homogêneo. A pessoa responderia seu local de moradia ou CEP, e isso seria correlacionado a uma tabela de setores.

Por outro lado, adjudicar o que seria mais razoável como cota para cada um de centenas de milhares de setores não seria lá muito factível. É aí que entra a outra proposta quanto à ação afirmativa: a de que ela se dê, não por cotas como na maioria dos programas atuais, mas por pontos como em alguns deles. A calibragem possível numa idenização por pontos é bem mais fina, e mais previsível, do que num sistema por cotas. Além disso, todo o sistema fica mais transparente para beneficiários e prejudicados. (Sim, prejudicados. Quem não é beneficiado num sistema de alteração da vantagem relativa é prejudicado por ele, e negar não adianta nada: a questão é que esse prejuízo é uma forma de compensar o privilégio que se aufere por ser branco.)

A proposta não é, vejam bem, eliminar a ação afirmativa de cunho racial, até porque já ficou claro em diversas pesquisas que o racismo, dirigido especificamente à pessoa de traços negros, afeta as pessoas até dentro de uma mesma família (criando uma diferença estatisticamente perceptível até entre irmãos gêmeos). Ficaria, assim, o sistema proposto de pontuação:

x pontos por ser negro ou indígena
y a 4y pontos dependendo do setor censitário
z a 2z pontos por ter estudado a vida inteira ou parcialmente em escola pública comum

Com divulgação de vestibular, de preferência, não revelando esses bônus, que são assunto privado de cada um. Sim, isso resultaria em gente de favela ficando entre os primeiros no vestibular...imagino que faria mal aos anúncios de redes de cursinhos.

Atualização: A Playboy já se juntou à nossa campanha contra a tabareofobia!

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