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21.3.12

Realpolitik e a pata manca

Talvez seja exagero chamar Dilma de pata manca precoce, mas isso só o tempo dirá. Que, hoje, tem cara, tem. Seu governo se restringe a tocar o barco e a defenestrações ministeriais. A alegação é, sempre, satisfazer as bases, fazer o possível - apesar das "bases," em ambos os significados de aliados políticos e massa militante, não estarem nem um pouco satisfeitos. É um leitmotif dos argumentos em defesa de ações governamentais, no mundo inteiro, a necessidade, o pragmatismo. Não se faz o ideal, mas o possível. Ora, essa alegação é, inegavelmente, sempre verdadeira, sendo virtuosos ou escusos os objetivos do governo; ninguém, nem mesmo o mais férreo autocrata, jamais vê suas vontades integralmente efetivadas no mundo real. Nem Quéops, nem Gengis Cã, nem Qianlong, Alexandre Magno ou o autocrata de sua preferência. A questão é que o pragmatismo é usado como desculpa para encobrir dois grandes vícios de governo, a mediocridade e o que vou chamar de teriomania, e que com uma assustadora frequência leva o nome de Realpolitik.

A mediocridade é simples, se danosa: a lógica do poder - como qualquer coisa que é vista como amealhável, como capital - é a acumulação. Não se gasta capital político, mas se consolida. Não se deve gastá-lo nesta ocasião, porque deve ser reservado para assuntos importantes. Nem nesta. Nem nesta. E assim se vai perpetuando uma situação de imobilismo, ou melhor, de inércia (movimentos anteriores são perpetuados). Assim, Dilma tem a maior base parlamentar de qualquer presidente da história do Brasil - mas nunca impõe à sua base que vote desta ou daquela maneira, porque isso significaria perder seu apoio. Nem tampouco abre mão dessa base em momento algum. Não há o julgamento pragmático de quando isso vale a pena, mas a necessidade quase atávica de acumular deputados, como um esquilo se preparando para um inverno que nunca virá.

A teriomania é um pouco mais curiosa. Ela se desenvolve a partir do momento em que alguém identifica coisas moralmente condenáveis que por outro lado são vistas como necessárias. Ora, como aquele que vai em frente e comete o malfeito necessário não tem, em geral, vocação para aquele Judas do conto de Borges, que redimia os pecados do mundo sendo condenado ao inferno, convertem em uma ação particularmente moral a transgressão moral. São virtuosos porque se dispuseram a tomar para si os pecados, para que a sociedade sobrevivesse. São melhores do que aqueles que não se dispõem a tomar esses golpes morais em nome do bem maior. A progressão tem uma conclusão lógica: aquele que empreende ações imorais por fins morais é superior àquele que para os mesmos fins apenas usa meios morais.

Assim é que ninguém fala que em nome da Realpolitik, talvez devamos limpar o meio ambiente. Talvez seja uma ação de Realpolitik tirar as bases americanas do Oriente Médio. A Realpolitik não faria com que um grupo numeroso e politicamente amorfo como os homossexuais valesse mais em termos de cortejamento eleitoral do que um grupo igualmente numeroso, mas politicamente definido e influenciável por líderes definidos como os evangélicos. A Realpolitik não faria com que se aumentasse o IRPF no começo do mandato, para melhorar as finanças do governo. Etc. etc. etc... Essa noção de pragmatismo sempre irá, preferencialmente, seguir pelo caminho considerado moralmente questionável. É por isso, em parte, que partidos de esquerda, quando estão no poder em posições não tão seguras, são muitas vezes mais realistas do que o rei mercado.

Não é a única coisa que faz Dilma se acochambrar tanto com os interesses obscuros da política, claro. Existem casos de pragmatismo real. Existem avaliações erradas. Existem problemas de incapacidade pessoal. Dilma, afinal, não é política. Estreou em cargos eleitos como presidente. Está acostumada a mandar, o que podia fazer como ministra, mas não sabe o que fazer quando o esporro é devolvido e não pode mandar - ou seja, na relação com os outros poderes da República.

O novo Código Florestal, ou a adulteração dos royalties de hidrocarbonetos, são questões reais da relação de forças no Congresso. A bancada ruralista é mais coesa do que a imensa maioria dos partidos brasileiros (sim, coesa de parlamentares votarem contra seus próprios interesses e opiniões, se for fechada questão), representa um terço do Congresso, e tem interesse direto no desmatamento. Os royalties do petróleo são cobiçados pelas três quartas partes dos deputados e oito em cada nove senadores. Dilma não se opõe diretamente porque sabe que seria derrotada, e tegiversa.

Por outro lado, a constante reação assustada à bancada evangélica é uma combinação de leitura errada, covardia, e teriomania. Leitura errada porque a bancada evangélica é superestimada e mal avaliada - não é coesa em absoluto, nem é tão forte assim. Nem é, em sua maioria, particularmente avessa aos mesmos incentivos materiais que seduzem o resto da "base aliada." Não foi eleita, em muitos casos, como evangélica. Os 71 parlamentares listado como "da bancada evangélica" (menos de metade do número dos ruralistas) são todos aqueles que participam da Frente Parlamentar Evangélica, o que não significa mais do que uma carteirinha de clube; cada parlamentar participa de várias "frentes." (Tem Frente Parlamentar até de apoio a hidrovias.) Mesmo se você tirar da conta do neopentecostalismo deles o preconceito que é a única coisa que defendem, e que é defendido por outros, não há indicação - para além do barulho - de que seria eleitoralmente problemático. Mas a covardia confunde barulho com força; a teriomania torna prazeroso o ato de tapar o nariz para sentar-se à mesa com Edir Macedo, dono da Record e de Crivella. E assim temos os afagos e mimos aos evangélicos.

PS diga-se, sobre Crivella, que o ministério da Pesca não significa p. nenhuma. Além de não dever existir. O que dói nos afagos aos evangélicos é o abandono de programas de direitos humanos.

PPS que o preconceito não se restringe aos evangélicos, e que o tom de histeria anti-LGBT não é de agora deve ser admitido vide esta cena de 2005.

7 comentários:

Adib disse...

Dê tempo e covardia, e a bancada evangélica consegue a coesão e força que precisa.

Anônimo disse...

Sem dúvida Dilma não é um lame duck. E no segundo ano de governo Lula estava em plena crise do mensalão. Discutia-se se teria futuro político. Você está superdimensionando os fatos.

Tiago Thuin disse...

A discussão se Lula teria futuro político era wishful thinking da Veja & co. E não considero em nada os dois governos situações parecidas - até porque Dilma é continuidade em relação a Lula, e não uma troca de grupo no poder.

Mas sem dúvida posso estar errado. Torço pra que em gênero, número e grau.

Tiago Thuin disse...

A discussão se Lula teria futuro político era wishful thinking da Veja & co. E não considero em nada os dois governos situações parecidas - até porque Dilma é continuidade em relação a Lula, e não uma troca de grupo no poder.

Mas sem dúvida posso estar errado. Torço pra que em gênero, número e grau.

Anônimo disse...

Há uma aposta clara em que, ao escolher seus próprios interlocutores na base aliada, a presidenta conterá os movimentos de chantagem que têm sucedido de forma permanente a troca dos ministros vitimados por denúncias. E que existe espaço na agenda para correr esse risco.
Não parece aleatória a estratégia política assumida pela presidenta Dilma Rousseff (PT), desde que iniciou uma reforma ministerial em capítulos. A leitura que deve ser feita da ação de Dilma junto à base aliada (aí incluídas as escolhas ministeriais e de lideranças no Congresso politicamente mais afinadas com o perfil que quer dar às relações entre Executivo e Legislativo) é a de que ela bancou o risco de desarranjar uma coalizão montada pelo governo anterior, que também deu sustentação à sua candidatura, para fugir ao permanente impasse de demitir auxiliares indicados pelos partidos a cada denúncia de corrupção, e em seguida ser obrigada a se submeter à chantagem dos mesmos partidos para manter as pastas nas mãos dos grupos hegemônicos nas legendas. E, se correu o risco, é porque o governo avaliou que há espaço para tentar arranjos na base partidária, ... Leia mais: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5525

Tiago Thuin disse...

Gostaria muito de acreditar nisso. Mas, sinceramente, não é a impressão que passa. Antes vejo aquela reação de quem, assustada, eventualmente acomete, de olhos fechados.

Tiago de Thuin disse...

Um ano e meio depois... http://www.valor.com.br/politica/3208664/apoio-dilma-na-camara-e-o-pior-desde-que-pt-chegou-ao-poder